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04 abril 2020

outras coisas

este blog agora serve como arquivo para as postagens antigas, entre 2018-2020 (porque foi o que eu consegui manter e restaurar, uma vez que os lugares onde eu salvava os posts de 2015 a 2017 foram excluídos/desativados).

devido a várias coisas relacionadas a personalidade, as postagens antigas do blog foram arquivadas como se eu fosse começar do zero - porém não, pra não deixar todo mundo confuso como eu deixei das outras vezes. podem clicar em qualquer uma das tags abaixo para encontrar todas as coisas.

façam bom proveito! clique aqui pra me encontrar

18 março 2020

pare de separar tudo em caixinhas

Eu odeio rótulos.
Eu não sei se eu já escrevi sobre isso mas eu odeio rótulos, de verdade. Odeio essa coisa de se prender a uma determinada coisa porque alguém decidiu que X coisa é pra X tipo de pessoa e Y pra Y pessoas.
Mas acho que, acima de qualquer motivo pra eu odiar rótulos, eu os odeio porque eu fico obcecada com eles.

Eu sou uma daquelas pessoas chatas, insuportáveis, que ficam criando esteriótipos das pessoas na cabeça e colocando elas em caixinhas, tentando decifrá-las da maneira mais lógica e binária que for possível. E isso acontece muito comigo mesma também.

Aí eu fico perdida com relação a quem eu sou: é estranho pra mim que uma pessoa possa ser artística, racional, sentimental, gostar de rock, cultivar plantas, preferir a noite ao dia, entender de informática mas querer cursar biologia ou psicologia. É estranho em comparação aos rótulos que eu coloco nos outros (meu namorado é a pessoa sentimental, meu melhor amigo é o piadista, minha amiga é aquelas meninas meio Britney Spears e o namorado dela o gamer que gosta de esportes). Eu não me encaixo em um único rótulo, eu tenho hobbies diversos, pensamentos diversos, uma personalidade profunda e complexa que depende de muitos fatores.

Mas, parando pra pensar, todo mundo é tão complexo quanto eu.

Se eu não ficasse colocando rótulos em meus amigos, saberia que meu namorado sabe muito bem ser frio e fechado quando quer, e que meu melhor amigo nem sempre tá com vontade de fazer piada. Minha amiga não é só meio Britney, é estudiosa e inteligente; o namorado dela faz coisas que não envolvam games ou esportes. Pessoas são pessoas, não papéis. 

Por isso, de uma vez por todas: Ei, eu. Pare de separar tudo em caixinhas.

16 março 2020

você tem medo do escuro?

Porque eu não costumava ter, até aquilo começar a aparecer.

Começou na porta do meu quarto, com um sorriso de caráter duvidoso. Algo escuro e sem forma específica, que me encarava profundamente com seus olhos lampejantes e dentição pútrida. Não fazia nada além de observar meus devaneios e tornar cada vez mais difícil de adormecer.

Depois disso, ficou mais difícil de evitar sua presença: passou a me seguir pela casa. Sempre atrás de mim, a espreita, olhando com seus olhos travessos de quem poderia simplesmente me estripar no momento em que desejasse. Ao me virar, não via ninguém — é tão veloz como é calculista e sádico, atacando sutilmente cada nervo de meu corpo e me deixando impotente para me defender.

Não sendo o bastante, resolveu falar — e muito —. Sussurros, frases curtas e o chamado infeliz embebido de um riso doentio de arrepiar a espinha, declarando que tiraria de mim tudo que amo ou estimo. Já não conseguia mais desfrutar de meu sono e procurava passar maior tempo possível com as luzes, artefato este que me dava a ilusória sensação de que ele não poderia me pegar, acesas e funcionando com total luminosidade.

Sei que aquela coisa enorme, com toda sua repugnância, deita-se atrás de mim e acaricia meus cabelos. Embora não a possa ver, sinto seu sorriso e não consigo me mover ou gritar por ajuda. Sei que toca meus ombros e profere seu riso diminuto, alertando para que eu tome cuidado e mantenha  a atenção, ameaçando fazer coisas que sequer poderia colocar em palavras.

Por sua causa, perdi o sono. Evito meu quarto. Não ando mais com as luzes apagadas e evito ficar a sós com outra pessoa, visto a gravidade de suas ameaças em relação aos outros. E é por isso que estou te perguntando isso: se não teme o escuro, é mais seguro que você passe a ter. Evite o escuro, evite seu quarto, evite pensar muito quando puder estar à mercê dele.

Ele me disse que está indo atrás de você.

23 agosto 2018

intrapessoal

Eu não estou aqui. Apesar de estar aí, sentada à janela como quem acha o céu a coisa mais interessante do mundo, eu na verdade fugi. Fui pra um lugar distante onde o amanhã não existe, uma utopia perfeita em que de forma alguma eu estaria sofrendo por não poder te contar aquilo que sequer eu sei. A confusão fez casa em meu redor nesses tempos. Já não sei se posso ficar por muito tempo, já não quero mais formar raízes por aqui e a essa altura, não tenho escolha. Não quero nem posso. Se me tornar árvore, serei derrubada e levada à força em pouco tempo, antes de sequer poder firmar a mim mesma. Não, prometi a mim mesma ser passarinho, ser aquela que não se importa de ir, de ficar, aquela que faz ninho onde quer que tenha galho no chão. Mas como ser passarinho quando não sei nem de que chão posso pegar os galhos?

14 agosto 2018

para transbordar

Não te limita a regras
Não deixa que escolham tua hora de parar
Não te permite ser oprimida por tua própria timidez
Não dá às vozes na tua cabeça a opção de disputar o controle
Não te deixa ficar presa às beiradas do recipiente em que te colocaram, porque sabemos
Não é só isso
Não pode ser só isso
Transborda
Em cores
Em sabores
Em valores
Transborda
E nunca te limita
A uma caixa 
Quadrada
Selada
No fundo do quintal.

08 agosto 2018

o título saiu correndo (não é um poema de amor)

Eu sinto falta.
Falta de coisas que eu nunca vivi, falta daquilo que eu sequer sei se conheci
Falta do que uma vez idealizei que acontecia e que, de fato, nunca senti
Falta de escrever poema de churrascaria tentando conquistar teu coração
(Na verdade, eu queria conquistar o meu)

Eu queria poder pensar assim de novo.
Pensar que um dia eu realmente senti
Tão forte, estonteante, desconcertante paixão
Que um dia, de fato, tu me teve na tua mão
(A realidade é que nem eu me tinha)

Me desculpa, acho que menti pra ti.
Todos os versos, as músicas, a emoção
Eu não sei o que foi aquilo; de fato, acho que de certa forma te amei
Mas não sei se entendi direito
(Acho que não nos comunicamos bem)

E eu ainda assim sinto um pouco de falta.
Falta de incertezas que sei que jamais voltarão
De não prestar atenção nos minutos que se vão
Das águas passadas, que distantes agora eu sei que estão
(Ninguém se banha no mesmo rio duas vezes).

29 abril 2018

oh hannah

A madrugada certamente é o momento mais adequado para devaneios. Aprecio bastante a sensação de mergulhar na banheira, sentir os músculos relaxarem e minha mente inebriar-se de forma lenta, como um adormecer em que se permanece consciente. E como um sonho, as lembranças de mais cedo retornam, como se as tivesse vivendo uma segunda vez.
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Oito horas da manhã e sinto o frio do inverno a maltratar meus pulmões enquanto caminho pelas ruas da cidade, em direção à cafeteria na qual costumo tomar chá antes do trabalho. A cafeteria em que minha amiga Hannah agora trabalha. Hoje a verei outra vez, estou determinada a fazer com que este dia não seja como os outros. Não a deixarei ir novamente.

Adentro o estabelecimento, deixando meu casaco de lã batida no cabideiro próximo à porta e, junto dele, minha blusa de manga comprida. A ambientação do lugar é realmente potente, de forma que mesmo nevando do lado de fora, podemos ficar tranquilamente de camiseta do lado de dentro. Direciono-me à mesa mais distante, próxima à janela, e aproveito para permitir que meus olhos corram pelo local em busca de minha garçonete favorita. Os olhos de Hannah encontram os meus, ela sorri de forma travessa. Meu deus.

A garota caminha até mim, abre o bloco de notas e me pergunta o que eu quero. Me questiona da forma mais neutra possível, como se não soubesse perfeitamente a resposta.

— Por favor, traz um chá de maçã. Às nove horas, tenho compromisso. — ela anota e responde a última parte piscando o olho direito, sorri e se recolhe para trás da bancada. Hannah sabe que estarei esperando às nove horas, e também sabe onde estarei esperando. Estamos combinadas. Ela sabe que estou ansiosa. Hannah consegue ler minuciosamente minha existência, e é impossível não fascinar-me por isso. Outra garçonete traz-me o chá alguns minutos depois, e sinto a bebida doce aquecer-me e encher-me de expectativas. Ainda são oito e meia. Procuro prolongar a ação o máximo possível, até que o horário definido se aproxime. Oito e quarenta e cinco, ótimo. Pago a conta e vou embora, percebendo que a menina também já não está mais ali. Talvez ela chegue mais cedo.

Caminho às pressas até o ponto de ônibus, entrando no beco próximo a este. Atrás dos caixotes velhos que são cheios com a entrega de alimento para a cafeteria toda terça-feira, lá está a menina que amo. Sua pele agora está mais pálida devido ao frio, seus cabelos bagunçados e sua atenção voltada a mim. Somente nós duas, ali, naquele momento. O mundo para com um selar gentil de lábios, que transmite exatamente o que ela planeja me dizer. Bem vinda de volta. Hannah, meu amor, eu jamais fui embora.
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25 fevereiro 2018

paixão é uma lata de refri

Eu não gosto muito de refrigerante. Quer dizer, a bebida é boa e tudo mais, é doce e me traz uma sensação gostosa. Na verdade, eu não gosto muito das consequências de beber refrigerante, por isso evito ao máximo bebê-lo. Às vezes o gás machuca a garganta ou o nariz, às vezes eu me engasgo, às vezes me dói o estômago. Às vezes eu desfruto perfeitamente daquela sensação, sem prestar atenção no fato de que a bebida está me matando de pouco em pouco.
Tem vezes que eu não posso tomar refri, mesmo que queira muito. Às vezes eu vejo refrigerante na rua e penso "minha nossa, como eu queria poder tomar refri agora". Mas simplesmente é algo que está fora do meu alcance, afinal eu não o tenho. Olhar para o refri nessas situações é como olhar pra ti.
Eu não curto me apaixonar, acho que só fiz isso uma vez ou duas (o que não foi agradável, afinal só fiquei sentindo em silêncio). Evito ao máximo deixar meus sentimentos tomarem conta de mim, gosto de manter tudo sob controle. Todo mundo diz que é uma coisa boa, que é saudável e perfeitamente "normal" do ser humano querer se apaixonar. Mas todo mundo diz que é normal tomar refri. E aqui estou eu, com medo da droga do efeito que isso me causa. Não consigo pensar direito. Não consigo me concentrar. Não consigo agir da forma que acho coerente. Quero fazer tudo da forma mais calculada possível pra ter o meu refri o mais cedo possível. Parece que nesse momento em especial estou desesperada por refri. Às vezes eu fico sem graça e não consigo falar o que realmente quero, soltando alguma piada aleatória. Meu estômago embrulha e meu corpo ferve toda vez que vejo refri. Eu não gosto disso, não gosto de ficar à mercê das consequências da bebida.

Eu acabei de tomar uma lata inteira de refri. E meu deus, eu realmente preferia sentir o gás machucar a garganta ou o nariz do que sentir meu estômago embrulhar por pensar em ti. Será que consigo te comprar com pepsi?