este blog agora serve como arquivo para as postagens antigas, entre 2018-2020 (porque foi o que eu consegui manter e restaurar, uma vez que os lugares onde eu salvava os posts de 2015 a 2017 foram excluídos/desativados).
devido a várias coisas relacionadas a personalidade, as postagens antigas do blog foram arquivadas como se eu fosse começar do zero - porém não, pra não deixar todo mundo confuso como eu deixei das outras vezes. podem clicar em qualquer uma das tags abaixo para encontrar todas as coisas.
Eu não sei se eu já escrevi sobre isso mas eu odeio rótulos, de verdade. Odeio essa coisa de se prender a uma determinada coisa porque alguém decidiu que X coisa é pra X tipo de pessoa e Y pra Y pessoas.
Mas acho que, acima de qualquer motivo pra eu odiar rótulos, eu os odeio porque eu fico obcecada com eles.
Eu sou uma daquelas pessoas chatas, insuportáveis, que ficam criando esteriótipos das pessoas na cabeça e colocando elas em caixinhas, tentando decifrá-las da maneira mais lógica e binária que for possível. E isso acontece muito comigo mesma também.
Aí eu fico perdida com relação a quem eu sou: é estranho pra mim que uma pessoa possa ser artística, racional, sentimental, gostar de rock, cultivar plantas, preferir a noite ao dia, entender de informática mas querer cursar biologia ou psicologia. É estranho em comparação aos rótulos que eu coloco nos outros (meu namorado é a pessoa sentimental, meu melhor amigo é o piadista, minha amiga é aquelas meninas meio Britney Spears e o namorado dela o gamer que gosta de esportes). Eu não me encaixo em um único rótulo, eu tenho hobbies diversos, pensamentos diversos, uma personalidade profunda e complexa que depende de muitos fatores.
Mas, parando pra pensar, todo mundo é tão complexo quanto eu.
Se eu não ficasse colocando rótulos em meus amigos, saberia que meu namorado sabe muito bem ser frio e fechado quando quer, e que meu melhor amigo nem sempre tá com vontade de fazer piada. Minha amiga não é só meio Britney, é estudiosa e inteligente; o namorado dela faz coisas que não envolvam games ou esportes. Pessoas são pessoas, não papéis.
Por isso, de uma vez por todas: Ei, eu. Pare de separar tudo em caixinhas.
Já faz uns dias que tenho sentido uma profunda vontade de diversificar o conteúdo do blog um pouco, provavelmente devido ao excesso de postagens em estilo diário. Não que escrever sobre minha vida seja negativo, só que se tudo fica na mesmice eu acabo cansando e por isso preciso inovar. Quero escrever sobre coisas que provoquem reflexão, que possam ser úteis e informativas também e não só sobre a morte da bezerra — embora seu infeliz falecimento seja o tópico central de meus pensamentos na maioria do tempo.
Pra dar início a essas postagens informativas, logo cogitei a questão de Identidade de Gênero, uma vez que tenho considerável embasamento na luta LGBTQ+ e também porque dúvidas relacionadas a gênero têm me contemplado mais que nunca nos últimos meses. Penso em introduzir os conceitos básicos necessários para entender o que é identidade de gênero e então introduzir a diferença de binariedade para não-binariedade, exemplificando e de quebra tocando também nas polêmicas relacionadas a neolinguagem. Todavia, como sempre acabo me empolgando enquanto escrevo, talvez as coisas tomem um rumo um tanto quanto diferente e eu até me estenda demais vksjds
musiquinha para vosso entretimento, como de costume
Conceitos básicos envolvendo gênero
A diferença entre sexo biológico e gênero: O termo "sexo biológico" refere-se ao gênero que foi designado a uma pessoa quando ela nasceu, podendo este estar no binário de feminino x masculino ou no espectro intersexo, entre os quais está incluso o hermafroditismo e mais de vinte outras formas de intersexualidade (mas que, até onde fui informada, também recebem registro feminino ou masculino). Gênero diz respeito a como uma pessoa se identifica e deseja ser interpretada em sociedade, sendo completamente independente da expressão de gênero e do conceito de papéis de gênero (ou seja, uma pessoa se identificar com o gênero feminino não significa que ela concorda com todas as imposições que aquele gênero sofre em sociedade, desde "ter de usar rosa" a maternidade compulsória, e também não significa que ela deseja se vestir e se comportar da forma que é tipicamente esperada no conceito cultural da realidade dela).
Expressão de gênero: É como uma pessoa se sente confortável em seu próprio gênero, com base no que é culturalmente lido como tipicamente feminino e masculino (roupas, comportamentos, dependendo do contexto pronomes e outras coisas). Existem inúmeras expressões de gênero e, como mencionado anteriormente, a forma que uma pessoa expressa seu gênero não interfere em nada em quão válido ele é.
Papéis de gênero: São normas impostas socialmente com base no tipicamente masculino e feminino, que variam de acordo com a cultura, religião, espaço geográfico e outros diversos fatores. Um exemplo da pluralidade cultural para papéis de gênero é a Tribo chinesa Mosuo, em que os homens são responsáveis pelas tarefas domésticas e as mulheres lideram a sociedade — um pouquinho distante do que é esperado de cada gênero aqui no Brasil (e da própria China, onde é comum o infanticídio feminino).
Cisgeneridade e transgeneridade binária: Todas as pessoas recebem uma designação de gênero, o dito sexo biológico. A dicotomia da cisgeneridade e transgeneridade diz respeito à sua identificação (ou à ausência dela) com esse gênero. Por exemplo: Fulana foi designada com o gênero masculino ao nascer, mas se identifica com o gênero feminino. Já Beltrana foi designada com o gênero feminino e também se identifica com o gênero feminino. Fulana é uma mulher trans, enquanto Beltrana é uma mulher cis. Ou seja: Quando uma pessoa se identifica com o gênero correspondente àquele designado em seu nascimento, ela é cis; se não, é trans.
Privilégio cis: Diz respeito a uma série de benefícios que contemplam homens e mulheres cis, como por exemplo, a ausência de questionamentos alheios acerca de seu gênero e o direito de usar o banheiro correspondente a seu gênero sem nenhuma burocracia. Não significa que homens e mulheres cis são igualmente privilegiados, afinal homens cis brancos, neurotípicos e heterossexuais são mais privilegiados que qualquer categoria social e quanto mais uma pessoa se afasta desse ideal, mais preconceitos ela sofre e menos privilégios a contemplam. Mulheres cis têm o privilégio de não passarem pelos desconfortos e sofrer o mesmo preconceito que mulheres trans, assim como homens cis não têm as vivências de um homem trans.
lotor: príncipe injustiçado
Binarismo x Não-binariedade
O binarismo de gênero corresponde à ideia de que homem e mulher são os únicos gêneros possíveis e "naturais", sendo o maior embasamento para a defesa dessa ideia o fator biológico (o que, como já vimos, não é consistente, uma vez que existem diversas formas de intersexualidade, condição biológica que foge desse padrão). Pessoas cis e trans binárias se enquadram exclusivamente em homem ou mulher, não podendo ser nada além de um deles.
Já a não-binariedade é a noção de que existem mais de dois gêneros e que as pessoas podem ser homem, mulher, mais de um, nenhum deles ou fluir entre vários gêneros. Ainda condiz com a ideia de que existe um número finito de gêneros, mas não estão presos à noção de tão poucas identidades possíveis. Toda pessoa não binária é por padrão uma pessoa transgênero, visto que não se identifica exclusivamente com o gênero designado ao nascer.
Identidades não-binárias e o Tumblr: O que mais ouço é que o surgimento da não-binariedade de gênero se deu pelo Tumblr e pela disseminação da "teoria queer" por adolescentes de quatorze anos que querem uma opressão pra chamar de sua. De fato, existe uma certa popularização da comunidade trans enby (não-binária) por conta da presença de muitos LGBTQ+ na rede social em questão, mas não é por isso que as identidades são inválidas. Gêneros que não se refiram a coisas (gênero-estrela, gênero-estática), qualidades (gênero-fofo) e coisas do tipo são integralmente válidos (e os que se referem a esse tipo de coisa são em sua maioria clickbait).
Identidades não-binárias e sua importância cultural: Apesar de o exemplo mais citado ser a identidade de dois-espíritos (identidade exclusivamente indígena, em que os indivíduos possuem o espírito feminino e masculino dentro de si), existe uma ampla gama de culturas que incluem gêneros não-binários. A não-binariedade esteve presente em muitos contextos ao longo da história humana, em alguns deles inclusive sendo motivo de celebração. (Uma lista de identidades além do homem e da mulher).
O que é neolinguagem: Forma de neutralizar a linguagem, tornando-a inclusiva para todos os gêneros. Em inglês, usa-se o they no lugar de she/he como forma de neutralizar a frase e torná-la inclusiva. Em português, a comunidade trans está tentando utilizar o elu (e eu planejo fazer uma postagem exclusivamente sobre isso).
A importância da neolinguagem para pessoas trans: Existe um conceito chamado "misgender" que corresponde ao acontecimento de ter seu gênero lido incorretamente com base em sua aparência que seria evitado com a formalização da linguagem neutra. Além disso, as pessoas que preferem usar somente o pronome neutro como forma de identificação (ou seja, cujos pronomes em português seriam elu/delu e em inglês they/them) seriam definitivamente inclusas no padrão culto e não seriam forçadas a optar pelo masculino ou feminino como segunda opção para aqueles que "não se acostumariam" a utilizar essa flexão de gênero. Outra questão importante contemplada pela neolinguagem é deixar de aderir ao masculino como forma de neutralização de frase.
Por que não faço uso dessa linguagem diariamente? Gosto de tornar a linguagem o mais inclusiva possível e por isso não podemos esquecer também das pessoas autistas, disléxicas e neurotípicas em geral. A flexão de gênero para o neutro não é algo a que todos os seres humanos do planeta estão habituados e isso pode atrapalhar muito a leitura e comunicação dessas pessoas. Acho importante que se use a linguagem neutra, atualmente, quando "elu" for o pronome da pessoa a quem você está se dirigindo. É importante sim que nos mobilizemos e que se mude a norma culta, mas com sutileza para que essas pessoas não fiquem mais excluídas do que já são usualmente.
Exemplos de identidades de gênero não-binárias
Não-binário: Termo guarda-chuva para todo o espectro enby que é usado por alguém que não se identifica com nenhum gênero específico do espectro, mas não se identifica com os gêneros binários.
Agênero: Como o prefixo "a" sugere, diz respeito à ausência de gênero ou a "gênero neutro". Também pode englobar pessoas que simplesmente não ligam para seu gênero e não se identificam com aquele designado em seu nascimento.
Gênero-fluido: Identidade de gênero que flui entre dois ou mais gêneros, dependendo de como a pessoa se sente. Não tem nada a ver com as roupas da pessoa, como indicado por essa magnífica imagem ♥️
Bigênero: Pessoa que se identifica com dois gêneros (inclusive, dois espíritos é um exemplo de identidade bigênero) que podem ser ou não o feminino e o masculino.
Travesti: As travestis podem sim ser consideradas um gênero a parte das mulheres trans (mesmo que também sejam mulheres), uma vez que travesti é uma mulher trans latino-americana que prefere se denominar simplesmente "travesti". Não é uma identidade não-binária pois uma travesti ainda se identifica como mulher, mas achei importante destacar esse fato.
É engraçado como essa postagem é tão diferente e maior do que as outras coisas que costumo escrever. E também é engraçado de perceber o quão difícil foi escrever, já que sempre gosto de pensar "uma pessoa de 12 anos conseguiria entender isso? e uma de 20? e uma de 35? e uma pessoa que não tem embasamento sobre o assunto?" e aí acabo sendo o mais detalhista possível. E agora dou adeus a quem me lê e vou terminar minha tarefa de geometria espacial. Até mais ♥️
Er, faz bastante tempo que eu não passo por aqui. Bastante mesmo. Como sempre, né? Eu nunca me afasto assim por tanto tempo quanto penso que ficarei afastado. (Não, não é uma confusão. Não está tudo errado, esse é o Folk Potato, o mesmo blog que algumas pessoas costumavam ler, só eu que mudei mesmo. Especificamente de nome. É um pouco estranho escrever sobre isso diretamente, mas nos meses em que estive fora, acho que me entendi oficialmente como menino trans e gostei muito do nome Victor, embora não tenha propriamente "saído do armário" pra quase ninguém. Gostaria que se referissem a mim no masculino por aqui, já que é como me sinto mais confortável).
Passei pro terceiro ano e deixei, finalmente, 2019 pra trás! Dia 12 minhas aulas tiveram início e foi tudo muito ruim. Meu namorado passou pra manhã e não foi muito legal ficar sem ele, já que eu meio que não sinto que meus colegas queiram ficar perto de mim (e não julgo, porque não sei se eu iria querer). Quase reprovei em física (aquela preguiça que comentei na postagem anterior se postergou um pouco e acabei não aprendendo muito durante o ano. Mas me esforcei muito no final e tirei 9.2/10 na última prova, o que me aprovou). Espero que o layout também tenha ficado de vosso agrado! Fiquei super orgulhoso porque pela primeira vez os códigos saíram todos da minha cabeça (sem pedir nenhuma ajudinha!!). Agradeço à minha querida amiga Kamilla por arrumar a corzinha do pinheiro que fica no topo. Amiga, tu é demais ♡
O natal foi incrível e eu tenho percebido que, nesse ano de 2020, tenho permitido um pouco mais que meus sentimentos tenham de fato voz dentro da minha cabeça destrambelhada. Desde que me entendo por gente, sempre fui uma pessoa extremamente sensível — e, pondo-me a explicar o que quero dizer com isso: Sempre chorei vendo pessoas tristes. Sempre "absorvi" o ambiente mais do que ele me absorveu e por conta disso, passei a viver com uma sobrecarga emocional que não necessariamente era minha.
Todos meus amigos desabafam comigo, porque sabem que eu os escutarei e me colocarei no lugar deles.
Todo mundo me pede ajuda.
Todo mundo acha que eu sou o menino emocionalmente resolvido da situação.
Mas a verdade é que eu sou uma pessoa extremamente sensível a qualquer coisa. De verdade. Tem dias que eu me sinto exausto só porque a luz ficou ligada e doeu meus olhos, e já preciso dormir por causa disso. Tem dias que sair de casa já é uma péssima ideia pela quantidade de estímulos aos quais posso ser exposto. Se eu assisto alguma pessoa idosa falando sobre seu cotidiano, eu me emociono porque acho extremamente fofo e inteligente. Pessoas sendo insensíveis e tratando outras pessoas como piada me destroem por completo, choro por horas. E eu me culpava pra caramba por isso!
Recentemente, em um dos meus estudos mais aleatórios sobre coisas envolvendo personalidade, introversão e psicologia, encontrei um termo que me pareceu bem interessante: Pessoas hipersensíveis (Highly Sensitive People), li muito a respeito e imediatamente me entendi como uma dessas pessoas. Pra quem não pode ver o vídeo, pessoas hipersensíveis são basicamente pessoas que são extremamente sobrecarregadas por estímulos em excesso, que absorvem os sentimentos das outras pessoas e que se colocam com muita facilidade em seu lugar, consequentemente sentindo tudo de forma intensa. A grande maioria dessas pessoas é introvertida (pessoas que se sobrecarregam após muita interação social e precisam passar tempo em atividades mais reservadas para "recarregar suas baterias") — característica que, pra ajudar, também me contempla.
Ler um pouco mais sobre pessoas que são mais sensíveis a coisas como eu mesmo sou tem me ajudado muito a aceitar que tá tudo bem em não conseguir ouvir e ajudar todo mundo com fibra pra continuar. Tá tudo bem desabar às vezes diante de todas as coisas ruins que existem no mundo. Não tem problema nenhum em ser uma pessoa sensível, em precisar ficar sozinho e em chorar de vez em quanto. Na verdade, aceitar essas coisas têm me ajudado a entender quem eu sou!
Olhando pra trás, parece até loucura que alguém que se esforçava tanto pra não chorar e pra permanecer forte tenha finalmente entendido que sua própria força está na capacidade de se sentir fraco. Toda grande árvore já foi uma semente, não é mesmo? 🌱