este blog agora serve como arquivo para as postagens antigas, entre 2018-2020 (porque foi o que eu consegui manter e restaurar, uma vez que os lugares onde eu salvava os posts de 2015 a 2017 foram excluídos/desativados).
devido a várias coisas relacionadas a personalidade, as postagens antigas do blog foram arquivadas como se eu fosse começar do zero - porém não, pra não deixar todo mundo confuso como eu deixei das outras vezes. podem clicar em qualquer uma das tags abaixo para encontrar todas as coisas.
Já faz uns dias que tenho sentido uma profunda vontade de diversificar o conteúdo do blog um pouco, provavelmente devido ao excesso de postagens em estilo diário. Não que escrever sobre minha vida seja negativo, só que se tudo fica na mesmice eu acabo cansando e por isso preciso inovar. Quero escrever sobre coisas que provoquem reflexão, que possam ser úteis e informativas também e não só sobre a morte da bezerra — embora seu infeliz falecimento seja o tópico central de meus pensamentos na maioria do tempo.
Pra dar início a essas postagens informativas, logo cogitei a questão de Identidade de Gênero, uma vez que tenho considerável embasamento na luta LGBTQ+ e também porque dúvidas relacionadas a gênero têm me contemplado mais que nunca nos últimos meses. Penso em introduzir os conceitos básicos necessários para entender o que é identidade de gênero e então introduzir a diferença de binariedade para não-binariedade, exemplificando e de quebra tocando também nas polêmicas relacionadas a neolinguagem. Todavia, como sempre acabo me empolgando enquanto escrevo, talvez as coisas tomem um rumo um tanto quanto diferente e eu até me estenda demais vksjds
musiquinha para vosso entretimento, como de costume
Conceitos básicos envolvendo gênero
A diferença entre sexo biológico e gênero: O termo "sexo biológico" refere-se ao gênero que foi designado a uma pessoa quando ela nasceu, podendo este estar no binário de feminino x masculino ou no espectro intersexo, entre os quais está incluso o hermafroditismo e mais de vinte outras formas de intersexualidade (mas que, até onde fui informada, também recebem registro feminino ou masculino). Gênero diz respeito a como uma pessoa se identifica e deseja ser interpretada em sociedade, sendo completamente independente da expressão de gênero e do conceito de papéis de gênero (ou seja, uma pessoa se identificar com o gênero feminino não significa que ela concorda com todas as imposições que aquele gênero sofre em sociedade, desde "ter de usar rosa" a maternidade compulsória, e também não significa que ela deseja se vestir e se comportar da forma que é tipicamente esperada no conceito cultural da realidade dela).
Expressão de gênero: É como uma pessoa se sente confortável em seu próprio gênero, com base no que é culturalmente lido como tipicamente feminino e masculino (roupas, comportamentos, dependendo do contexto pronomes e outras coisas). Existem inúmeras expressões de gênero e, como mencionado anteriormente, a forma que uma pessoa expressa seu gênero não interfere em nada em quão válido ele é.
Papéis de gênero: São normas impostas socialmente com base no tipicamente masculino e feminino, que variam de acordo com a cultura, religião, espaço geográfico e outros diversos fatores. Um exemplo da pluralidade cultural para papéis de gênero é a Tribo chinesa Mosuo, em que os homens são responsáveis pelas tarefas domésticas e as mulheres lideram a sociedade — um pouquinho distante do que é esperado de cada gênero aqui no Brasil (e da própria China, onde é comum o infanticídio feminino).
Cisgeneridade e transgeneridade binária: Todas as pessoas recebem uma designação de gênero, o dito sexo biológico. A dicotomia da cisgeneridade e transgeneridade diz respeito à sua identificação (ou à ausência dela) com esse gênero. Por exemplo: Fulana foi designada com o gênero masculino ao nascer, mas se identifica com o gênero feminino. Já Beltrana foi designada com o gênero feminino e também se identifica com o gênero feminino. Fulana é uma mulher trans, enquanto Beltrana é uma mulher cis. Ou seja: Quando uma pessoa se identifica com o gênero correspondente àquele designado em seu nascimento, ela é cis; se não, é trans.
Privilégio cis: Diz respeito a uma série de benefícios que contemplam homens e mulheres cis, como por exemplo, a ausência de questionamentos alheios acerca de seu gênero e o direito de usar o banheiro correspondente a seu gênero sem nenhuma burocracia. Não significa que homens e mulheres cis são igualmente privilegiados, afinal homens cis brancos, neurotípicos e heterossexuais são mais privilegiados que qualquer categoria social e quanto mais uma pessoa se afasta desse ideal, mais preconceitos ela sofre e menos privilégios a contemplam. Mulheres cis têm o privilégio de não passarem pelos desconfortos e sofrer o mesmo preconceito que mulheres trans, assim como homens cis não têm as vivências de um homem trans.
lotor: príncipe injustiçado
Binarismo x Não-binariedade
O binarismo de gênero corresponde à ideia de que homem e mulher são os únicos gêneros possíveis e "naturais", sendo o maior embasamento para a defesa dessa ideia o fator biológico (o que, como já vimos, não é consistente, uma vez que existem diversas formas de intersexualidade, condição biológica que foge desse padrão). Pessoas cis e trans binárias se enquadram exclusivamente em homem ou mulher, não podendo ser nada além de um deles.
Já a não-binariedade é a noção de que existem mais de dois gêneros e que as pessoas podem ser homem, mulher, mais de um, nenhum deles ou fluir entre vários gêneros. Ainda condiz com a ideia de que existe um número finito de gêneros, mas não estão presos à noção de tão poucas identidades possíveis. Toda pessoa não binária é por padrão uma pessoa transgênero, visto que não se identifica exclusivamente com o gênero designado ao nascer.
Identidades não-binárias e o Tumblr: O que mais ouço é que o surgimento da não-binariedade de gênero se deu pelo Tumblr e pela disseminação da "teoria queer" por adolescentes de quatorze anos que querem uma opressão pra chamar de sua. De fato, existe uma certa popularização da comunidade trans enby (não-binária) por conta da presença de muitos LGBTQ+ na rede social em questão, mas não é por isso que as identidades são inválidas. Gêneros que não se refiram a coisas (gênero-estrela, gênero-estática), qualidades (gênero-fofo) e coisas do tipo são integralmente válidos (e os que se referem a esse tipo de coisa são em sua maioria clickbait).
Identidades não-binárias e sua importância cultural: Apesar de o exemplo mais citado ser a identidade de dois-espíritos (identidade exclusivamente indígena, em que os indivíduos possuem o espírito feminino e masculino dentro de si), existe uma ampla gama de culturas que incluem gêneros não-binários. A não-binariedade esteve presente em muitos contextos ao longo da história humana, em alguns deles inclusive sendo motivo de celebração. (Uma lista de identidades além do homem e da mulher).
O que é neolinguagem: Forma de neutralizar a linguagem, tornando-a inclusiva para todos os gêneros. Em inglês, usa-se o they no lugar de she/he como forma de neutralizar a frase e torná-la inclusiva. Em português, a comunidade trans está tentando utilizar o elu (e eu planejo fazer uma postagem exclusivamente sobre isso).
A importância da neolinguagem para pessoas trans: Existe um conceito chamado "misgender" que corresponde ao acontecimento de ter seu gênero lido incorretamente com base em sua aparência que seria evitado com a formalização da linguagem neutra. Além disso, as pessoas que preferem usar somente o pronome neutro como forma de identificação (ou seja, cujos pronomes em português seriam elu/delu e em inglês they/them) seriam definitivamente inclusas no padrão culto e não seriam forçadas a optar pelo masculino ou feminino como segunda opção para aqueles que "não se acostumariam" a utilizar essa flexão de gênero. Outra questão importante contemplada pela neolinguagem é deixar de aderir ao masculino como forma de neutralização de frase.
Por que não faço uso dessa linguagem diariamente? Gosto de tornar a linguagem o mais inclusiva possível e por isso não podemos esquecer também das pessoas autistas, disléxicas e neurotípicas em geral. A flexão de gênero para o neutro não é algo a que todos os seres humanos do planeta estão habituados e isso pode atrapalhar muito a leitura e comunicação dessas pessoas. Acho importante que se use a linguagem neutra, atualmente, quando "elu" for o pronome da pessoa a quem você está se dirigindo. É importante sim que nos mobilizemos e que se mude a norma culta, mas com sutileza para que essas pessoas não fiquem mais excluídas do que já são usualmente.
Exemplos de identidades de gênero não-binárias
Não-binário: Termo guarda-chuva para todo o espectro enby que é usado por alguém que não se identifica com nenhum gênero específico do espectro, mas não se identifica com os gêneros binários.
Agênero: Como o prefixo "a" sugere, diz respeito à ausência de gênero ou a "gênero neutro". Também pode englobar pessoas que simplesmente não ligam para seu gênero e não se identificam com aquele designado em seu nascimento.
Gênero-fluido: Identidade de gênero que flui entre dois ou mais gêneros, dependendo de como a pessoa se sente. Não tem nada a ver com as roupas da pessoa, como indicado por essa magnífica imagem ♥️
Bigênero: Pessoa que se identifica com dois gêneros (inclusive, dois espíritos é um exemplo de identidade bigênero) que podem ser ou não o feminino e o masculino.
Travesti: As travestis podem sim ser consideradas um gênero a parte das mulheres trans (mesmo que também sejam mulheres), uma vez que travesti é uma mulher trans latino-americana que prefere se denominar simplesmente "travesti". Não é uma identidade não-binária pois uma travesti ainda se identifica como mulher, mas achei importante destacar esse fato.
É engraçado como essa postagem é tão diferente e maior do que as outras coisas que costumo escrever. E também é engraçado de perceber o quão difícil foi escrever, já que sempre gosto de pensar "uma pessoa de 12 anos conseguiria entender isso? e uma de 20? e uma de 35? e uma pessoa que não tem embasamento sobre o assunto?" e aí acabo sendo o mais detalhista possível. E agora dou adeus a quem me lê e vou terminar minha tarefa de geometria espacial. Até mais ♥️
Eu gosto de filmes simples, que narram o dia-a-dia de pessoas comuns. Hoje eu quero voltar sozinho foi muito bom por causa disso: não tem grandes conflitos, um herói ou alguém pra salvar. Só tem os personagens vivendo a vida deles e embolando seus sentimentos de jeitos meio estranhos, ou seja, bem pertinho do que a gente vive todo dia. O filme é de 2014, foi dirigido por Daniel Ribeiro e é protagonizado pelo personagem Leo, um menino cego que é superprotegido pelos pais (principalmente a mãe), gosta muito de música clássica, da casa da avó e gostaria de fazer intercâmbio. A melhor amiga dele, Giovana, gosta muito de quando eles passam os dias juntos na piscina e de poder levar ele em casa (e não à casa, porque esse filme não segue norma culta).
São só eles dois, até que um menino novo entra pra turma deles na escola, o Gabriel, que gosta de música animada e tem cabelos cacheados muito fofos. Ele começa a conversar com a Giovana e logo os três ficam amigos, até que o desenvolvimento do romance entre o Gabriel e o Leo acaba de certa forma complicando as coisas em relação à amizade dos dois com ela. Muitos outros conflitos são apresentados além desse, como a situação do intercâmbio x superproteção da família.
É um filme delicado, com uma trilha sonora linda. Mesmo que relativamente "lento" em questão de narrativa, não deixa de prender quem assiste.
A madrugada certamente é o momento mais adequado para devaneios. Aprecio bastante a sensação de mergulhar na banheira, sentir os músculos relaxarem e minha mente inebriar-se de forma lenta, como um adormecer em que se permanece consciente. E como um sonho, as lembranças de mais cedo retornam, como se as tivesse vivendo uma segunda vez.
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Oito horas da manhã e sinto o frio do inverno a maltratar meus pulmões enquanto caminho pelas ruas da cidade, em direção à cafeteria na qual costumo tomar chá antes do trabalho. A cafeteria em que minha amiga Hannah agora trabalha. Hoje a verei outra vez, estou determinada a fazer com que este dia não seja como os outros. Não a deixarei ir novamente.
Adentro o estabelecimento, deixando meu casaco de lã batida no cabideiro próximo à porta e, junto dele, minha blusa de manga comprida. A ambientação do lugar é realmente potente, de forma que mesmo nevando do lado de fora, podemos ficar tranquilamente de camiseta do lado de dentro. Direciono-me à mesa mais distante, próxima à janela, e aproveito para permitir que meus olhos corram pelo local em busca de minha garçonete favorita. Os olhos de Hannah encontram os meus, ela sorri de forma travessa. Meu deus.
A garota caminha até mim, abre o bloco de notas e me pergunta o que eu quero. Me questiona da forma mais neutra possível, como se não soubesse perfeitamente a resposta.
— Por favor, traz um chá de maçã. Às nove horas, tenho compromisso. — ela anota e responde a última parte piscando o olho direito, sorri e se recolhe para trás da bancada. Hannah sabe que estarei esperando às nove horas, e também sabe onde estarei esperando. Estamos combinadas. Ela sabe que estou ansiosa. Hannah consegue ler minuciosamente minha existência, e é impossível não fascinar-me por isso. Outra garçonete traz-me o chá alguns minutos depois, e sinto a bebida doce aquecer-me e encher-me de expectativas. Ainda são oito e meia. Procuro prolongar a ação o máximo possível, até que o horário definido se aproxime. Oito e quarenta e cinco, ótimo. Pago a conta e vou embora, percebendo que a menina também já não está mais ali. Talvez ela chegue mais cedo.
Caminho às pressas até o ponto de ônibus, entrando no beco próximo a este. Atrás dos caixotes velhos que são cheios com a entrega de alimento para a cafeteria toda terça-feira, lá está a menina que amo. Sua pele agora está mais pálida devido ao frio, seus cabelos bagunçados e sua atenção voltada a mim. Somente nós duas, ali, naquele momento. O mundo para com um selar gentil de lábios, que transmite exatamente o que ela planeja me dizer. Bem vinda de volta. Hannah, meu amor, eu jamais fui embora.