18 março 2020

pare de separar tudo em caixinhas

Eu odeio rótulos.
Eu não sei se eu já escrevi sobre isso mas eu odeio rótulos, de verdade. Odeio essa coisa de se prender a uma determinada coisa porque alguém decidiu que X coisa é pra X tipo de pessoa e Y pra Y pessoas.
Mas acho que, acima de qualquer motivo pra eu odiar rótulos, eu os odeio porque eu fico obcecada com eles.

Eu sou uma daquelas pessoas chatas, insuportáveis, que ficam criando esteriótipos das pessoas na cabeça e colocando elas em caixinhas, tentando decifrá-las da maneira mais lógica e binária que for possível. E isso acontece muito comigo mesma também.

Aí eu fico perdida com relação a quem eu sou: é estranho pra mim que uma pessoa possa ser artística, racional, sentimental, gostar de rock, cultivar plantas, preferir a noite ao dia, entender de informática mas querer cursar biologia ou psicologia. É estranho em comparação aos rótulos que eu coloco nos outros (meu namorado é a pessoa sentimental, meu melhor amigo é o piadista, minha amiga é aquelas meninas meio Britney Spears e o namorado dela o gamer que gosta de esportes). Eu não me encaixo em um único rótulo, eu tenho hobbies diversos, pensamentos diversos, uma personalidade profunda e complexa que depende de muitos fatores.

Mas, parando pra pensar, todo mundo é tão complexo quanto eu.

Se eu não ficasse colocando rótulos em meus amigos, saberia que meu namorado sabe muito bem ser frio e fechado quando quer, e que meu melhor amigo nem sempre tá com vontade de fazer piada. Minha amiga não é só meio Britney, é estudiosa e inteligente; o namorado dela faz coisas que não envolvam games ou esportes. Pessoas são pessoas, não papéis. 

Por isso, de uma vez por todas: Ei, eu. Pare de separar tudo em caixinhas.

16 março 2020

você tem medo do escuro?

Porque eu não costumava ter, até aquilo começar a aparecer.

Começou na porta do meu quarto, com um sorriso de caráter duvidoso. Algo escuro e sem forma específica, que me encarava profundamente com seus olhos lampejantes e dentição pútrida. Não fazia nada além de observar meus devaneios e tornar cada vez mais difícil de adormecer.

Depois disso, ficou mais difícil de evitar sua presença: passou a me seguir pela casa. Sempre atrás de mim, a espreita, olhando com seus olhos travessos de quem poderia simplesmente me estripar no momento em que desejasse. Ao me virar, não via ninguém — é tão veloz como é calculista e sádico, atacando sutilmente cada nervo de meu corpo e me deixando impotente para me defender.

Não sendo o bastante, resolveu falar — e muito —. Sussurros, frases curtas e o chamado infeliz embebido de um riso doentio de arrepiar a espinha, declarando que tiraria de mim tudo que amo ou estimo. Já não conseguia mais desfrutar de meu sono e procurava passar maior tempo possível com as luzes, artefato este que me dava a ilusória sensação de que ele não poderia me pegar, acesas e funcionando com total luminosidade.

Sei que aquela coisa enorme, com toda sua repugnância, deita-se atrás de mim e acaricia meus cabelos. Embora não a possa ver, sinto seu sorriso e não consigo me mover ou gritar por ajuda. Sei que toca meus ombros e profere seu riso diminuto, alertando para que eu tome cuidado e mantenha  a atenção, ameaçando fazer coisas que sequer poderia colocar em palavras.

Por sua causa, perdi o sono. Evito meu quarto. Não ando mais com as luzes apagadas e evito ficar a sós com outra pessoa, visto a gravidade de suas ameaças em relação aos outros. E é por isso que estou te perguntando isso: se não teme o escuro, é mais seguro que você passe a ter. Evite o escuro, evite seu quarto, evite pensar muito quando puder estar à mercê dele.

Ele me disse que está indo atrás de você.

15 março 2020

i'm not sure

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Eu to com as aulas suspensas por causa do coronavírus, mas fiz todas as atividades adiantadas e as enviei devidamente para os professores. O engraçado é que, com a ausência de aula eu tenho muito mais tempo pra ficar pensando, revendo meus princípios, questionando as coisas, ponderando, tomando decisões erradas e chorando depois. Mas quem nunca?

É curioso que, quando eu paro pra pensar, consigo ser mais de cinco pessoas em um único dia. Consigo aderir a três estéticas diferentes, posicionamentos diferentes, me contradizer todas as formas possíveis e no fim do dia sempre estou exatamente aqui: Olhando pro adesivo de pinguim fritando peixe que fica na geladeira da minha mãe (um dia eu fotografo ele, hoje to sem celular). Eu sei que faço muitas coisas todos os dias que podem ser mal interpretadas pelas pessoas e sei que não devo me preocupar com isso uma vez que nem seres de certas mitologias religiosas agradavam a todos, mas no fim do dia, acho que não estou orgulhando nem meus próprios princípios.

Em três anos de vegetarianismo, eu já comi carne umas 3 ou 4 vezes. Talvez isso soe idiota e estranho pra vocês e se soar, podem pegar minha carteirinha de vegetariana e confiscar. Eu como carne quando vejo que meus pais tão muito deprimidos com a minha decisão e que eles realmente preferiam que eu comesse de vez em quando, mas sempre me dá azia e eu fico bastante entristecida porque não queria ter comido. Hoje foi um desses dias: eu comi dois pedacinhos (daqueles que cortam com garfo e cabe na boca) de carne bovina e me sinto muito mal por isso, já que minha carne de lentilha já tava uma delícia. A questão é que eu sou do distrito de Gravataí, no Rio Grande do Sul — meus pais fazem churrasco toda a semana. É tradição da família desde que eu nasci e eu própria sei carnear se eu precisar disso um dia o que eu espero que nunca aconteça. O meu pai fica muito magoado com o fato de eu não comer a carne dele e isso também parte meu coração. Eu só queria que a(s) entidade(s) superior(es) que possivelmente existe(m) só fizesse(m) o favor de me conceber sabedoria pra saber o que fazer nessa situação, porque eu acho egoísta não comer carne quando meus pais ficam tão mal quanto hoje.

Tenho sido bem maldosa pro meu namorado também, e de forma alguma me orgulho disso. Me irrita que eu goste dele, eu acho. Não entendo muito bem essa coisa de sentimentos, mas sentir muita falta dele com 3 semanas sem ficarmos juntos é algo que eu nunca experienciei antes e tem me causado uma dor excruciante. Algumas das vezes em que ele diz que não vai poder me ver eu tenho vontade de simplesmente ir até a casa dele e fatiar ele na mesma hora por me deixar à mercê da minha própria solidão, mas sei que não é sempre culpa dele e que eu preciso de um toquezinho de razão na minha vida.

Na verdade, preciso de muito mais razão na minha vida, coisa que eu definitivamente não tenho usado. Desde mudar o layout a passar tempo demais contemplando minhas dúvidas relacionadas a gênero e o nada que tenho sentido recentemente, estou levando uma vida de excessos emocionais e sei que não tá me fazendo bem. Até entregar os trabalhos em dia, algo que sei que faço certo e que me faz bem, tem sido sem sentido pra mim.

Eu acho que simplesmente não sei mais usar a lógica.

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