16 outubro 2018

nem todas as crianças têm medo

Eu realmente queria que o Brasil cultivasse a tradição do Halloween. É simplesmente tão bonita e empolgante! Mas, como nem tudo é perfeito, contento-me com minhas maratonas de filmes mais obscuros e brevemente pretendo iniciar a leitura de livros do mesmo feitio — e aos interessados, tentarei fazer uma postagem de saldo neste mês, com todos os meus assistidos, lidos e afins. 

De todas as formas, sei que não sou a única que adere à tendência bruxesca de outubro (e fico deveras contente em saber disso), e muitos blogs têm feito postagens temáticas e mais obscuras; entre estes até mesmo o projeto Together, que visa a interação através de postagens mensais com um tema coletivo (as ditas blogagens) e lançou dois temas mensais maravilhosos: medos de infância e histórias reais de terror. Infelizmente, nada de muito obscuro aconteceu comigo nessa minha pacata vidinha — e olha que eu realmente queria que algo me deixasse com os cabelos em pé — e bem, pra falar a verdade eu nunca tive medo de infância algum que fosse 'impactante'. Mas entre essas duas blogagens, eu realmente queria fazer alguma e decidi falar justamente sobre meus medos não tão legais de infância, além de meus interesses igualmente estranhos.


Nem todas as crianças têm medo de fantasmas, bicho papão, histórias de espíritos ou do escuro...
E eu era uma das crianças que nunca teve medo dessas coisas. Vou aprofundar-me um pouco em minha infância: Deve estar estampado que eu sempre fui uma pessoa excêntrica e imaginativa, certo? Pois bem, lá estava a Joana feto, com seus quatro ou cinco anos, enquanto minha irmã mais velha tinha uns cinco anos a mais (eu nunca sei se ela é cinco, seis ou quatro anos mais velha que eu, às vezes confundo a diferença de idade dela com a minha pra minha irmã mais nova) e bem, eu protegia ela das histórias que nossa família nos contava. Minha irmã sempre foi mais sensível e, vulgarmente falando, "medrosa" do que eu. Ela tinha medo de espíritos, do escuro, de aranhas, baratas, cobras, palhaços — basicamente, medo de tudo a que se tinha direito. Eu, por outro lado, sempre fui tranquila até demais com essas coisas. Nunca tive problemas com insetos, sempre fui grande apreciadora do escuro e ficar sozinha nunca me assustou. As histórias de meus pais sobre palhaços e todas essas coisas estranhas que deviam assustar crianças não causavam nenhum impacto negativo na minha pessoinha. Enquanto minhas coleguinhas da escola gritavam de medo ao ver uma aranha ou uma barata, eu me aproximava pra poder vê-la mais de perto.
Algumas crianças sonham mais do que temem
Eu sempre quis que alguma coisa estranha me acontecesse. As possibilidades mágicas e sobrenaturais, em suas diversas e abrangentes formas, sempre me fascinaram. Fossem fadas, monstros, fantasmas, demônios, anjos, sereias ou elfos, sempre fui aquela que esperava pacientemente pelo dia que alguma coisa surpreendente bateria em minha porta. Justamente por isso eu nunca tive medo: A vontade de viver aquilo era maior. Recordo-me de falar com as paredes esperando por uma resposta, de acreditar firmemente nas mentiras que contava aos meus pais sobre ver e falar com fantasmas, torcendo para que minha persistência trouxesse meus anseios à vida. Lembro até hoje do dia em que minha irmã facilmente me enganou prometendo-me que iria pra Nárnia se entrasse no guarda-roupas dela (acabei por passar a tarde lá, de olhos fechados, esperando por algum sinal. ela comeu minha sobremesa enquanto eu esperava). Eu inventava histórias, sonhava muito com coisas assustadoras e tinha mais convicção nos meus sonhos do que naquilo que os adultos tentavam me fazer acreditar. Claro, a mente humana é capaz de pregar-nos peças e portanto não posso dizer com total convicção que sempre fui fiel aos meus devaneios. Mas pelo menos, é assim que me lembro. Mas sei que essa alma sonhadora foi o que me fez aprender a escrever e ir pra escola muito cedo: o anseio pelo novo sempre esteve presente em minha alma. Com o tempo, foi necessário escrever sobre isso — desde pequena eu escrevia sobre os mais abrangentes assuntos. 
Mas ao sonhar demais, acabamos nos distanciando da realidade
Em contrapartida, eu admito que tinha um pouco de medo das pessoas. Nunca fui uma das crianças populares que conseguiam um amplo leque de amiguinhos, que compareciam aos eventos escolares e que, de fato, estavam interessadas no mundo real por si só. Minha realidade estava em brincar de fada, de exploradora, de princesa, de Peter Pan e em tentar da melhor maneira possível tornar realidade as histórias que criava. Minha irmã sempre me diz que desde pequena eu era uma criança muito fechada para os outros; eu admito que tinha um medo gritante das pessoas adultas com sua mania de rir daquilo que não era "real" e das coisas que pareciam reais ou quadradas demais pra mim. Sempre gostei muito da escola porque podia aprender coisas novas como matemática, ciências, linguagens e artes, mas não gostava de ter que fazer a tarefa de casa ou os trabalhos em grupo (e admito que ainda não gosto). Era apaixonada pelas possibilidades desde bem criança, e isso me deixou com o título de CDF estranha e deslocada: aos quatro anos, passei a apanhar na escola. As contas logo foram acertadas — pela minha irmã, porque eu nunca consegui reagir nesse tipo de situação —, mas a violência verbal perdurou por muito tempo. Sempre criticavam minha personalidade "viajada demais", meus sonhos e quem eu era. Acredito que tudo tenha me feito uma criança fechada que não gostava de nenhum adulto e que gostava de pouquíssimas crianças, já que todas elas criticavam de alguma forma o que eu sempre gostei de fazer. 
E não somente por apanhar na escola ou por ser machucada psicologicamente e por muitas vezes (principalmente a partir do sexto ano, no caso da violência psicológica) chorar no meu canto por não me sentir encaixada em lugar nenhum que eu tinha medo. Eu sempre tive medo das pessoas porque sabia que elas podiam me causar danos reais: estupradores, assassinos, sequestradores, torturadores, ladrões, preconceituosos e pessoas simplesmente maldosas e cruéis eram muito mais impactantes do que demônios, fantasmas ou bruxas voando de vassoura. Voar de vassoura parece incrível, ao contrário de ter pessoas rindo sobre aquilo que tu mais ama fazer na vida, que naquela época era simplesmente imaginar. Tinha (e tenho) um medo constante de ser humilhada ou reduzida de alguma forma. Apesar de minha irmã mais velha sempre ter sido incrível pra mim e ter alimentado fortemente meus sonhos, sendo a mais incrível parceira de aventuras que eu poderia ter, as pessoas continuavam sendo cruéis fora de casa. E mesmo que talvez a intenção delas nem fosse essa ou que elas não medissem o suficiente o tamanho do estrago que podiam fazer ao dizer todas aquelas coisas, elas continuavam fazendo um enorme estrago.

Talvez por ter desde pequena me sentido tão rejeitada pelas pessoas é que eu tenha tanta dificuldade em me abrir e expor minhas ideias atualmente. Não é como se eu não quisesse conversar sobre o que penso, o que sinto e o que imagino — porque a alma de um sonhador nunca morre —, é apenas que já não me sinto confortável pra isso. Não me sinto confortável em situação social nenhuma, na verdade raramente me sinto confortável, mesmo quando se trata da minha família. Gosto de imaginar as coisas sozinha, de expressar-me para mim mesma através do meio artístico e de extravasar meus sentimentos pra mim mesma, através de longas sessões de choro, sono ou de isolamento em prol de minha saúde mental. Sinto medo de conversar com as pessoas na rua, de dar a resposta errada ou de parecer idiota. Não quero que ninguém sinta-se desconfortável com minha presença e sempre que alguém ri comigo por perto me sinto reduzida. Acredito que todos esses impactos estranhos na minha personalidade sejam causados pelos meus medos de infância, que cresceram comigo e foram fortalecidos a partir de influências externas, tornando-se não os monstros com que sempre sonhei conviver e que as outras crianças abominavam, mas sim monstros figurativos e torturantes que provavelmente me assombrarão pelo resto da vida. Ainda assim, orgulho-me imensamente da minha alma sonhadora e da criança que fui, porque sei que aproveitei minha infância, mantive a mente aberta e apreciei cada momento. Reconheço a preciosidade de não ter sido uma criança com medos superficiais e mesmo que isso tenha me tornado em alguém com tão pouca habilidade social, também sei que moldou o espírito de artista que hoje carrego comigo. 
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Uau! No geral, essa postagem ficou bem mais profunda e pessoal do que jamais imaginei que ela ficaria. Eu não pretendia fazer algo tão melancólico, apenas queria comprovar que desde criança eu sempre fui meio esquisita e bem, eu nunca tive medo de barata! XD Espero que não tenha ficado pesado demais comparado às demais postagens com esse tema e bem, vocês estão livres pra falar a respeito de qualquer medo de infância que tenham. Ou vocês também não tinham esses medos usuais de criança e as críticas das pessoas os assustavam mais do que palhaços e fantasmas? Estou ansiosa pra saber. Fiquem com um pouco de Tchaikovsky, pra cortar as energias negativas da postagem ♡

7 comentários:

  1. Oi Joana!

    Como eu disse ontem (ou hoje, não lembro se já tinha passado da meia noite KDJKS) eu gostei muito desse post, eu me identifiquei muito principalmente com essa parte "Talvez por ter desde pequena me sentido tão rejeitada pelas pessoas é que eu tenha tanta dificuldade em me abrir e expor minhas ideias atualmente. Não é como se eu não quisesse conversar sobre o que penso, o que sinto e o que imagino — porque a alma de um sonhador nunca morre —, é apenas que já não me sinto confortável pra isso" eu nunca vivi uma situação de agressão física quando sofri bullying, sempre foi psicológica, só que isso acabou fazendo muito dano no modo como eu via as pessoas, hoje em dia eu simplesmente não me aproximo de pessoas que estão perto de mim fisicamente, tipo, no meu dia a dia aqui na minha cidade eu tenho um total de 0 amigos, eu só consigo fazer amizade de verdade online, porque tem uma certa segurança no meu ponto de vista, um amigo online machuca muito menos que um amigo ao vivo e a cores, eu peguei um trauma de ter amigos próximos que morem perto de mim ou na mesma cidade, por conta de tudo que eu já vivi principalmente quando eu estava no ensino fundamental, também me identifiquei muito nessa frase "Tinha (e tenho) um medo constante de ser humilhada ou reduzida de alguma forma" de alguma forma eu também ainda tenho esse medo, apesar de hoje em dia eu ter superado um pouco dessa parte, mas ainda sinto isso em mim no fundo da minha personalidade e dos meus pensamentos, é muito complicado, quando eu começar a trabalhar e tiver meu próprio dinheiro acho que vou acabar procurando um psicólogo para conversar sobre essas coisas, elas me incomodam ás vezes, me deixam para baixo e tal, percebi recentemente que esses problemas resultaram num problema ainda maior que eu tenho hoje em dia: a dificuldade de me relacionar com outras pessoas, não só levando para o lado amoroso, mas também amigos e família.

    Eu não tinha medo de tantas coisas "normais" o meu maior medo desde criança são as galinhas, também tinha medo de lobisomens e chupa-cabra. SKDJSKDJ

    Beijos!

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  2. Respostas
    1. Sempre te achei corajosa! Não do jeito convencional, pois sei muito bem que tu não te sentes bem na frente de estranhos. Mas digo em relação às coisas assustadoras, teu fascínio pela arte do horror e as inúmeras facetas de contrastar melancolia com pavor (lembro da tua época de webwritter e suas histórias tristonhas e macabras). Sempre admirei isso, afinal, sempre tive medo até de minha própria sombra. Tu, mais do que ninguém, tem conhecimento sobre a minha postura desprovida de coragem (acho que é isso que nos torna uma dupla infalível de demônios do submundo: nos complementamos).

      Lamento que alguém como tu tenha experienciado uma infância tão complicada em relação às pessoas, tu deves ter sido uma criança incrível se comparada a pessoa maravilhosa que és agora. Conheço o sentimento, aquele de servir de acalento para a vida frustrada de outrem. É uma memória dolorida que me faz sentir que ninguém ao meu redor é meu amigo ou gosta de mim, o que me tornou alguém aborrecedor e terrivelmente carente. Mas deixe estar, no futuro estaremos onde queremos estar: em uma casa na floresta, longe de todos os problemas da vida em sociedade.

      Eu sou muito sensível com misticismo. Já fui descrente, mas sempre tem algo que nos choca. Vou contar minhas aventuras na blogagem, mas temo que tu já conheças algumas.

      ps.: desculpe a visita tardia. Te amo do fundo do coração, "masuta".

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  3. Oiee Joana, desculpa meu sumiço e perder muitas suas postagens de novo....

    Talvez vc vai sentir estranha de receber um comentário desses de uma pessoa mega realista como eu, mas acho que sonhar é necessário para qualquer pessoa se sentir bem e se identificar o que realmente ama. Acho muito bonito isso e nunca acho algo como errado ou estranho, devo admirar muito pela sua superação.
    Tem muitas histórias de terror, mas meu medo é quase igual ao seu, existe monstros, fantasmas, capirotos, mas apesar de tudo a que tenho mais medo são pessoas.

    Kiss!

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  4. Hello, Joana ♥

    Entendo perfeitamente esse lance de ter medo de ser rebaixada. É um medo que ultimamente tem me assombrado muito também, embora tem alguns dias que "não ligo" pro que os outros falam (mas é complicado de qualquer forma). As pessoas nem sempre têm essa intenção (ou não sabem a força das palavras que disparam). Penso que monstros não são nada ou são apenas o que seria uma "projeção" do pior lado das pessoas.
    Tenha certeza que, apesar dos apesares, você não é a única a passar por isso. Tudo o que passou vai te fazer forte lá na frente!

    (PS: Também não tenho medo de barata! JASIJSAIJSAIJSAIJA YAY \o/
    É mais fácil a barata ter medo de mim)

    Um beijo e um pão de queijo ♥

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  5. Ah, ansiosíssima pra esse post com as recomendações (ou não) do q vc leu e assistiu pra colocar tudo na minha lista de "ver/ler depois" que eu demoro horrores pra dar "ok" haha'
    Queria eu estar nessa vibe de halloween, mas acho que não to nem com muita animação e criatividade para postar... Porém, acho super legal essas temáticas, assim como as que estão lembrando do outubro rosa e do dia das crianças.
    Haha' eu sou completamente diferente, até gosto de ler livros de horror e terror, ás vezes um filme ou série com um suspense legal, mas sempre fui muito medrosa e facilmente assustável. Acho curioso você sempre ser "corajossa" pra essas coisas haha' muito legal também.
    Poxa, foda quando as pessoas tornam essas coisas como algo que nos faz mal, viram algo qu deveria ser um orgulho da personalidade contra nós :(
    Eu tinha medo de escuro e de cachorros. Medo de ficar sozinha também é algo presente, eu detesto ir pros lugares sozinha ás vezes, me dá um arrepio em pensar em ficar horas sozinha num lugar escuro, por exemplo, minha imaginação viaja e eu me sinto solitária a ponto de chorar. Mas não sei se conta haha'
    Não me assustava com palhaços e, de bichos, eu só tinha um pouco de nojo de animais como barata, dos outros eu tinha curiosidade de saber mais sobre.

    Até <3

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  6. Legal, aí depois você diz que é cética.

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